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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Considerações sobre a Modernidade Religiosa

Prof. Eduardo Gomes


A multiplicidade e a diversidade de ofertas de bens e serviços religiosos constitui hoje um fenômeno universal embora não seja inteiramente novo. Tomando como pano de fundo a situação sócio-religiosa brasileira, e até certo ponto latino-americana, gostaria de apresentar, ainda que brevemente, algumas formas de expressão e principais dimensões, de nossa modernidade religiosa.
Lembro-me, incialmente, que as relações entre religião e modernidade foram tratadas, durante algum tempo, como se uma excluísse a outra. Isto porque a modernidade surgiu prometendo um mundo futuro próximo regido pelo conhecimento científico e, desta forma, desprovido de mistérios e misticismos.
A secularização seria o projeto resultante do trabalho da modernidade sobre a religião, na medida em que ocasionaria o desaparecimento desta última ao apostar na onipotência da razão e da ciência que garantiriam o sentido da vida humana. No entanto, como pondera Rubem Alves: “Parece que algo andou errado com os profetas e as suas profecias. Porque bem no meio dos funerais de Deus e do réquiem à religião, uma chuva de novos deuses começou a cair e um novo aroma religioso encheu os nossos espaços e nosso tempo” (Alves, 1993: p. 167). De fato, hoje ninguém constesta que a modernidade está povoada de deuses, mistérios, mitos, energias e magias. Ao invés de eclipsar ou expulsar a religião, a modernidade fortaleceu-a, diversificou-a e contribuiu para a constituição de um pluralismo religioso.
Falando agora mais especificamente sobre o Brasil diria, como Carlos Jaimes dos Santos, que “nosso mode de ser modernos (...) ao invés de tornar viáveis as soluções racionais e razoáveis aos problemas graves que afligem a maioria da população brasileira (...) tem aprofundado as contradições inerentes a modernidade” (DOS SANTOS, 1996: p. 8). Neste contexto social de uma modernização que gera contradições formidáveis, as religiões e as forças sagradas sempre se mantiveram como opção e instância privilegiada de solução dos problemas e da aflições. Ou seja, a modernidade não foi acompanhada de um “desencantamento do mundo”, do “exorcismo” dos deuses. Ao contrário, ela acarretou a ampliação e a diversificação do campo religioso que ganhou novos nomes, novos rótulos, novos lugares e novas formas, com destaque para as religiões mágicas. Por isso mesmo, torna-se difícil falar em secularização no Brasil, e por extensão na América Latina, sobretudo no seu sentido de declínio da prática religiosa ou de laicizado, pela qual haveria uma total conquista da autonomia das várias esferas sociais que pretenderiam dotar-se de ideologias, referências e regras próprias separadas da religião.

Privatização do sagrado

Talvez mais do que no passado, há, na atualidade, uma tendência das pessoas em moldar a sua própria religião apropriando-se de fragmentos e de elementos provenientes de diversos e diferentes sistemas religiosos. Como escreve Brandão, hoje cada um “pode e deve realizar os seus próprios recortes de crenças e criar e recriar, como um bricolleur (...) a sua própria lógica da fé; o seu próprio imaginário da crença e o seu próprio código de virtude.” (BRANDÃO, 1994: p. 29). Sublinho que sujeitos sociais se apropriam de diferentes fontes religiosas em função de uma lógica pessoal, consciente ou inconscientemente construída, de alianças e consensos que formulam, e que respondem a situações, experiências e aspirações do momento. Desta forma, assim como “qualquer um pode mudar de uma (religião) para outra sem que o mundo caia” (PRANDI, 1996: p. 3), cada um pode também estruturar o seu próprio universo de representação simbólica sem que isso provoque dramas de consciência ou problemas de ordem ética. Até certo ponto, neste contexto, a ética é ditada pelo movimento do coração. Aqui vale destacar: em primeiro lugar, a privatização do sagrado, isto é, o pluralismo religioso no interior dos indivíduos, é perfeitamente compreensível e adequado ao contexto de uma modernidade que se caracteriza pela centralidade e exacerbação outorgada ao indivíduo; em segundo lugar, a privatização da religião expressa, ao menos simbolicamente e de alguma forma, o desejo de autonomia do sujeito em relação às instituições; e, em terceiro lugar, a privatização religiosa traz consigo a noção de consumo religioso, segundo as necessidades de cada um, num situado mercado religioso. Este consumo pode ser pago, como ocorre nas religiões afro-brasileiras e, sobretudo, no pentecostalismo.

Trânsito religioso

Outro modo de ser religioso atualmente, consiste no trânsito entre diferentes espaços sagrados e/ou sistemas de crenças, ou seja, na frequência simultânea a distintas religiões, sejam por aquelas que compõem a original matriz religiosa brasileira (catolicismo, espiritismo, afro-brasileiras, protestantismo), sejam por outros sistemas produtores de sentido, mas recentes e mais ou menos institucionalizados, de inspiração cristã ou não, de orientação mais ou menos espiritual, ecológica, terapêutica ou psicológica. Acredito que a circulação também tem sua lógica, sua racionalidade, seus limites, suas equivalências, suas homologias, ou seja, considero que os nômades da fé, constroem uma elaboração mental que justifica, preside e legitima sua mobilidade religiosa. Neste sentido, três concepções, mais ou menos conscientes segundo as pessoas, estão presentes nessa elaboração, que são: a complementariedade entre os diferentes sistemas religiosos a que recorrem; a maior proteção transcendental resultante do maior numero de sistemas religiosos com que circulam e as instituições particulares não esgotam as forças sagradas (o que revela insatisfação com a instituição religiosa de origem). Mas, estes raciocínios supõem dois pressupostos: a convicção dos migrantes religiosos na positividade de todas as religiões enquanto produtoras e garantidoras de eficácia e de sentido, e a existência de liberdade de cultos nes país (cada vez menos) católico.

(Continua na próxima edição com os seguintes temas: Ampliação e deslocamento do sagrado; Dimensão emocional; Dimensão globalizante; Dimensão terapeutica; As tradicionais instituições religiosas e a modernidade)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Provérbios

Um provérbio é uma frase pronta, que contém uma verdade constatada no dia-a-dia, a qual as pessoas ouvem e repetem. É uma sentença curta, rica em imagens, constituindo-se principalmente de contrastes e comparações. Não contém necessariamente um ensinamento moral, mas traz consigo uma sabedoria adquirida através da experiência de vida. É de caráter prático, indicando o caminho para uma boa conduta dentro dos princípios estabelecidos pela comunidade a qual se pertence.
Os provérbios ou ditados populares são muito eficazes porque evitam o discurso longo e tedioso, ou seja, economizam tempo e são de fácil assimilação. Imagine que em vez de dizer “Em boca fechada não entra mosca.”, você tivesse que dizer: “Não fale mais do que se deve porque você vai ter problemas com a pessoa de quem você falou.” Com certeza não teria o mesmo efeito, tanto por ser mais extenso, portanto com maior propensão a cair no esquecimento, como por não apresentar imagens concretas do mundo exterior, ficando apenas na abstração. A referência à mosca remete a doenças, e essa associação facilita o entendimento da gravidade do ato de falar o que não se deve.
Um provérbio deve necessariamente estar inserido em um contexto social, pois o seu conteúdo reflete a ideologia de uma dada comunidade. São os valores e crenças desta comunidade que serão transmitidos através desse gênero textual que vigora entre os escritos sapienciais justamente por revelar a sabedoria popular, a voz coletiva, o senso comum, reconhecido como “aquilo que todo mundo diz”.
Serve para alertar, especialmente os mais jovens, quanto ao perigo existente em situações já experimentadas pelos mais velhos, no objetivo de que aqueles não caiam na mesma “armadilha” que estes e sofram as consequências negativas.
Provérbios foram criados para serem observados, assimilados e divulgados, por isso possuem uma forma simples, utilizando recursos como rima e ritmo para facilitar a memorização.
O provérbio surge de uma realidade observada pela maioria das pessoas que, através de vivências do cotidiano, chegam à constatação de uma verdade.
Imagine a seguinte situação:
Você está passando a margarina no pão e ele cai da sua mão. Qual o lado que fica para baixo? O lado que está com a margarina, é claro!
Dessa experiência, poderíamos criar o seguinte provérbio:
“Pão quando cai, margarina lá se vai!”
Ao ser divulgado, a maioria das pessoas concordaria que isto realmente acontece e continuariam a divulgação no intuito de alertar para o fato.

Os provérbios eram comuns em Israel. Enquanto discurso didático, eles eram muito utilizados pelos sábios para transmitir aos seus discípulos conhecimentos de caráter prático, objetivando uma vida de qualidade que incluía bom senso, pensamentos elevados e atitudes corretas.
O livro de Provérbios é uma coletânea desses “ditados populares” que o povo de Israel utilizava para ensinar os princípios estabelecidos naquela comunidade. O próprio Salomão ressaltou que escreveu Provérbios “para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem as palavras da prudência. Para se receber a instrução do entendimento, a justiça, o juízo e a equidade; para dar aos simples, prudência, e aos moços, conhecimento e bom siso”. Nesse livro podemos encontrar assuntos como autodomínio, mentira, amizade, vícios, tentação, preguiça, generosidade, sexo, fofoca, entre outros.

Veja alguns exemplos:
“Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão”. (Pv. 17:17)
“A ira do insensato num instante se conhece, mas o prudente oculta a afronta”. (Pv. 12:16)
“O mexeriqueiro revela o segredo, mas o fiel de espírito o mantém em oculto”. (Pv. 11:13)
“Não dês às mulheres a tua força, nem os teus caminhos às que destroem os reis”. (Pv. 31:3)
“Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio”. (Pv. 6:6)

Por tratar de temas referentes à condição humana universal, os provérbios são sempre muito atuais; estão sempre presentes no discurso educativo dos avós, pais, professores etc. na tentativa de transmitir ensinamentos que contribuam para levar os mais jovens a terem atitudes mais sensatas. Sábio é o que incorpora o ensinamento proverbial não só ao seu discurso, mas também às suas ações, sendo capaz de avaliar as situações de risco e manter-se em segurança; tendo prudência no falar e no agir; tendo iniciativa para o bem e completa incapacidade para o mal. Pois, em um mundo onde se fala de Qualidade de Vida, o grande desafio é viver uma vida com qualidade!

Profª Cristina Ceschini

Referências:

ROCHA, Ruth & FLORA, Anna. Escrever e criar é só começar! São Paulo: FTD, 1996.

Revista JOVENS nº 3 - Vivendo uma vida de qualidade: estudo no livro de Provérbios. São Paulo: Editora Cristã Evangélica, 2005.

FERREIRA, George Emanuel Lira. Uma Introdução aos Escritos Sapienciais. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/28012/1/ketuvim/pagina1.html
Acesso em: 16/01/2010
SANTOS, Mônica Oliveira. Sobre os lugares de Enunciação Coletiva e o Dizer Proverbial. Disponível em: http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/volumes/31/htm/comunica/CiI25a.htm Acesso em: 16/01/2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O SISTEMA TEOLÓGICO NEOPENTECOSTAL DE PROPOSTA DE SALVAÇÃO

Prof. Eduardo Gomes

Uma marca muito forte do neopentecostalismo é a prevalência dos sinais sobre a essência. Neste particular, o neopentecostalismo apela para o irracionalismo filosófico1 e seus pregadores desconsideram condições intelectuais melhores, desdenhando, inclusive, dos pregadores mais bem preparados. Explorando a essencialidade, o neopentecostalismo se inclina para uma performance mercadológica com uma proposta peculiar de oferta de bens salvíficos. Sobre esta questão das “ofertas neopentecostais”, apresentamos algumas considerações do professor João Décio Passos2, que entendemos ser importante:

As ofertas são, quase sempre, proporcionais às procuras dos grupos humanos, com suas condições sociais e suas referências culturais específicas, por isso mesmo elas costumam acompanhar as transformações sofridas pelos mesmos grupos ao longo da história (...). A oferta de bens salvíficos do neopentecostalismo é a marca que o caracteriza como tal, estando presente nos discursos e nas práticas das diversas igrejas que o compõe (...) Na lógica da oferta neopentecostal, a solução está dada por Jesus, a igreja oferece o ritual de aquisição por meio de um gesto que permite ao fiel demonstrar sua fé no poder de Jesus. O fiel demonstra sua fé doando a Deus o que pode ou o que pede a prodigalidade de sua fé (...). A posse da bênção tem um conteúdo concreto que responde às necessidades e desejos mais prementes das pessoas, de modo particular das mais pobres, e uma teologia que sustenta o sistema de crenças neopentecostais. Essa teologia afirma que a vida desejada e planejada por Deus para os seus filhos é a vida feliz, ou seja, satisfeita de todos os bens. Doar é tomar posse dos bens que Deus destinou a seus filhos. Tudo o que perturba a ordem original deve ser desfeito pelos rituais da cura e do exorcismo, para que a bênção possa fluir (...). A teologia da prosperidade é, nesse sentido, a formulação mais madura desse processo de controle ritual da salvação, centrada, por um lado, na experiência de fé individual e, por outro, na habilidade dos pastores em provocar milagres. Tal desenvolvimento da concepção e da prática de salvação pentecostal vai ter um encontro decisivo com tendências protestantes da chamada confissão positiva, que afirma o poder da fé como força capaz de realizar transformações e milagres na vida das pessoas (...). A teologia da prosperidade resolve, portanto, o problema da salvação na história, delimitando-a na realização do bem-estar presente. (PASSOS, 2005, p. 61)

O sistema teológico do neopentecostalismo, sustenta uma prática de troca em que Deus doa na medida em que o fiel também doa. As indulgências, contra as quais o fundador do protestantismo levantou-se com todas as forças da inteligência e da vontade, sofrem uma reedição modernizada. Na teologia da indulgência, a oferta de bens era barganhada em troca de bens futuros, os valores monetários eram trocados por valores escatológicos. A aplicação no mercado do futuro continua, porém de um futuro que vai realizar-se na história, com correções e juros. As obras não apenas salvam como estabelecem o princípio seguro e compensador da proporcionalidade.
No neopentecostalismo, as ofertas e dízimos localizam-se dentro dessa lógica, que reproduz, no âmbito teológico e ritual, a regra moderna do mercado. Embora todo o discurso que rege a relação de troca seja teológico, não se trata de uma mera metáfora do mercado, mas de um mercado real, cujos rendimentos, embora ignorados em sua contabilidade pela população e pelos próprios adeptos, atingem significativas somas.
A forma como esta “teologia do mercado” se apresenta nas igrejas neopentecostais revela um elaborado trabalho de marketing. Considere o que o professor João Décio tem a dizer a este respeito:

O que se pode observar, empiricamente, nessas igrejas revela uma organização administrativa subjacente, ainda que sua mecânica e estratégia não sejam reveladas em detalhes aos pesquisadores. Quem visitar um culto, pode dizer que visitou todos ao menos naquilo que compõe a sua lógica de fundo. A arquitetura, as músicas, a sequência dos cultos, o tom da pregação, os uniformes dos obreiros, os papéis e funções, até os textos bíblicos utilizados, mantêm o mesmo padrão, o que aponta para uma organização e um planejamento centralizado. Embora não haja estudos específicos, no geral essas igrejas parecem adotar o sistema de franchising para abertura de novas igrejas. De qualquer forma, trata-se de organização fortemente centralizada, que executa um plano comum, o qual inclui a preparação dos pastores nas estratégias de marketing. Sobre essa questão não há dúvida de que a equação sujeito (necessidade e desejo) + produto (oferta) = linguagem (adequada) que rege o processo de comunicação do neopentecostalismo, ainda que fosse de modo inconsciente, numa espécie de afinidade eletiva com a cultura do consumo hegemônica em nossos dias. (PASSOS, 2005, p. 74)

Desta maneira, o Movimento Neopentecostal, assumindo uma postura mercadológica, propõe uma forma econômica de salvação. O restultado esperado da fidelidade financeira do devoto à instituição que detém o monopólio da manifestação do sagrado, é de salvação, entendida não como a transformação da vida do indivíduo à conformidade da vida de Cristo, sendo essa a menor de todas as relevâncias, e em alguns casos, até desnecessária, mas a prosperidade financeira e a perfeita saúde, situações positivas que se revelam contra um sistema econômico e de saúde nacional falido. Praticante de uma economoteologia, o Movimento Neopentecostal traz no seu bojo uma proposta de salvação que contraria a integralidade do Evangelho bíblico, vendo no bem estar social do indivíduo a única forma de compromisso de Deus com a humanidade, invertendo a lógica da graça, partindo das obras para o direito à salvação e não do sacrifício de Jesus para o recolhimento de vidas como manifestação do amor daquele nos amou primeiro e entregou a vida de Seu filho em resgate de muitos.


1 Corrente filosófica que surgiu em contraposição à chamada idade da razão. O irracionalismo sustenta que a capacidade humana para apreender a realidade é maior quando supera os limites do racional. A negação da racionalidade exclui, em geral, o campo das ciências naturais e matemáticas, bem como o da indústria e da técnica, para concentrar-se no das realidades propriamente humanas, sociais e históricas. Com raízes na metafísica, o irracionalismo enfatiza o papel do instinto, do sentimento e da vontade, em oposição à razão. Para a ontologia, implica que o mundo não tem estrutura racional, sentido ou propósito. Para a epistemologia, que a razão é incapaz de apreender o universo sem distorções. Para a antropologia, que o componente irracional é dominante na natureza humana.

2 Joao Décio Passos é professor associado do Departamento de Teologia e Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em Ciências Sociais, exerce o cargo de vice-reitor na mesma Universidade

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O NEOPENTECOSTALISMO E OS NOVOS DISCURSOS RELIGIOSOS CONTEMPORÂNEOS

Prof. Eduardo Gomes

O fenômeno religioso, conhecido como Neopentecostalismo, e também chamado por alguns pesquisadores da religião de Pentecostalismo Autônomo ou Pentecostalismo Místico, é uma vertente do Movimento Evangélico que apareceu no Brasil nos anos 70, fortalecendo-se nos idos de 1980. Sua marca específica é a liberação dos estereotipados usos e costumes, os quais durante muito tempo caracterizavam os crentes Pentecostais do Brasil, tais como: cabelos longos, saia abaixo do joelho, proibição de assistir televisão, etc. Houve, igualmente, por parte desta corrente, uma exacerbação da guerra espiritual contra o Diabo e o seu séquito de anjos caídos e a pregação enfática da Teologia da Prosperidade, associada à aquisição de bens materiais.
A Teologia da Prosperidade, doutrina bastante difundida nos EUA em 1930, assume para os neopentecostais os tons de uma vida com abundância. Esta ideologia teológica, prega que a pobreza é de origem demoníaca e que o verdadeiro Deus, por ser um pai amoroso e rico, quer ver seus filhos sadios, prósperos e ricos. Quem vive fora da dimensão da riqueza estaria fora dos propósitos divinos e necessitaria descobrí-lo.
Como bem analisou Campos (1999), esta doutrina é obviamente uma teologia muito apropriada para os excluídos que se multiplicam em nosso país, principalmente depois do processo de industrialização, pois a urbanização caótica que adveio nos anos 80 criou um contingente que se sentia desenganado e revoltado com a vida, mas ainda guardando vagas esperanças.
Todavia, engana-se quem pensa que o ponto de atração do neopentecostalismo seja apenas oferecer uma resposta a uma queixa financeira. Através da sedutora mensagem Pare de Sofrer, os líderes neopentecostais afirmam debelar, em nome de Jesus, quaisquer tipos de sofrimento, que vão desde a mais simples dor de cabeça, passando pela resolução dos problemas com drogas, alcoolismo e violência dentro da família, incluindo a cura de todo tipo de enfermidade (física ou mental), exorcismo de opressões espirituais, encostos, até a resolução de questões tão genéricas como conflitos amorosos, mau olhado e inveja.
Percebe-se, com isso, que a lógica que atravessa a composição do quadro doutrinário do neopentecostalismo incide em um inteligente trânsito simbólico de idéias e valores oriundos de matrizes tão distintas, como o são o catolicismo popular (mau olhado, inveja), as religiões afro-brasileiras (descarrego, opressão espiritual) e o próprio protestantismo (prosperidade, pastor, reavivamento da fé). Almeida e Montero (2001) nos informam sobre uma antropofagia religiosa efetivada pelo neopentecostalismo que, ao trabalhar com os binômios negação/inversão e assimilação/continuidade, consegue misturar exus com glossolalia, exorcismo com transe, aproveitando o solo altamente sincrético da religiosidade nacional.
Nas útlimas décadas, nos deparamos com a configuração de uma nova cartografia discursiva, que é marcada pela fragmentação da subjetividade. Essas novas maneiras de construção da subjetividade tendem a colocar o eu diante de uma fatídica encruzilhada, onde um lado aponta para a possibilidade de poder ocupar o lugar de objeto de glorificação, enquanto o outro caminho apresenta o risco de se deparar com o fracasso do ideal de realização de uma estética perfeita da existência. Infelizmente, o segundo caminho é mais largo, e ao percorrê-lo o eu se defronta com um conjunto de padecimentos: síndrome do pânico, bulimias, anorexias, toxicomanias, etc, que, se, a rigor, não aparecem como modos de adoecimento totalmente inéditos, apontam para leituras de um sintoma narcisista que representa a época atual. Essas psicopatologias da atualidade nos levam a pensar que as configurações discursivas contemporâneas repercutem na articulação de novas formas do sujeito se posicionar frente aos objetos. Sobre isso, afirma Carneiro (2004), estamos em tempos de consumo onde qualquer objeto pode ser utilizado maciçamente pelo discurso capitalista como algo consumível e significativo para o sustento da vida. Tempos de novas dietas, afirma este autor, ainda que estas sirvam apenas como recobrimento de antigas normas, em especial aquela que impulsiona o sujeito numa busca sempre renovada de aprender. Imaginariamente, o que lhe falta é superar, enfim o mal-estar que o constitui. O que chama a atenção nesta discussão é o caráter de urgência com que o sofrimento deve ser aplacado e o imperativo de adaptação a uma lógica utilitarista, aspectos que são bem próprios dos discursos de nossa época, do capitalista e do tecnocientífico principalmente.
Dito isso, parece haver uma analogia entre esses aspectos e a forma como os discursos religiosos contemporâneos, o neopentecostalismo principalmente, têm se comportado.
As religiões, assim como os outros discursos que sustentam nossa organização cultural contemporânea, encontram-se também atravessadas pelas imposições que a tecnociência e o capitalismo fazem em nome de uma eficácia dos objetos. Elas devem, de uma forma ou de outra, apresentar ao longo de sua Visão de Mundo Religiosa uma eficiência que não deixe espaço para a deflagração da marca fundamental do sujeito inserido no mundo da linguagem, ou seja, o desamparo.
Em um trabalho constante de construção de produtos que façam esboço de objeto perdido, os objetos oferecidos pelos discursos religiosos, que sempre tentaram suturar o desamparo original do sujeito contemporaneamente deve seguir o imperativo de mostrar a validade de sua proposta em responder de um modo adequado às demandas de solução do sofrimento. No caso de fracasso deste intento, não há mais cerimônias por parte dos fiéis em recorrer a outras Visões de Mundo Religiosas, ou seja, na escolha de novos discursos religiosos que se mostrem em melhor sintonia com as imposições de nossa sociedade atual.
Concluímos afirmando que por estarmos inseridos numa sociedade que segue a risca os ditames dos discursos da tecnociência e do capitalismo, onde a produção-consumo de uma série de objetos se apóia na satisfação pulsional imediata, na glorificação do eu e em uma estetização da existência, dificilmente escapamos da cristalização em uma lógica que investe constantemente em objetos que devem funcionar da melhor maneira possível não apenas para suportar o mal-estar mas extirpá-lo definitivamente. O descumprimento destes aspectos acarretaria no abandono deste artifício e na eleição de um outro objeto que, imaginariamente, se apresente como mais bem acabado.

Referências:
ALMEIDA, R. e MONTERO, P. Transito religioso no Brasil. In: São Paulo em Perspectivas, 15(3)2001, pp. 92-101.
CAMPOS, L. S. A Igreja Universal do Reino de Deus, um empreendimento religioso atual e seus modos de expansão (Brasil, África e Europa), In: Lusotopie, 1999, pp. 355-367
CARNEIRO, H. F. Sujeito, sofrimento psíquico e contemporaneidade: uma posição. In: Revista Mal-estar e Subjetividade, vol. IV, no. 2, setembro 2004, pp. 277-295.

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