Rua: Cel. Moreira César, 175 - Centro - São Gonçalo - RJ - Cep 24440.400
Tel.: (21) 2713-1350 e
-mail: gib@pibsg.org.br

Hoje é

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O NEOPENTECOSTALISMO E OS NOVOS DISCURSOS RELIGIOSOS CONTEMPORÂNEOS

Prof. Eduardo Gomes

O fenômeno religioso, conhecido como Neopentecostalismo, e também chamado por alguns pesquisadores da religião de Pentecostalismo Autônomo ou Pentecostalismo Místico, é uma vertente do Movimento Evangélico que apareceu no Brasil nos anos 70, fortalecendo-se nos idos de 1980. Sua marca específica é a liberação dos estereotipados usos e costumes, os quais durante muito tempo caracterizavam os crentes Pentecostais do Brasil, tais como: cabelos longos, saia abaixo do joelho, proibição de assistir televisão, etc. Houve, igualmente, por parte desta corrente, uma exacerbação da guerra espiritual contra o Diabo e o seu séquito de anjos caídos e a pregação enfática da Teologia da Prosperidade, associada à aquisição de bens materiais.
A Teologia da Prosperidade, doutrina bastante difundida nos EUA em 1930, assume para os neopentecostais os tons de uma vida com abundância. Esta ideologia teológica, prega que a pobreza é de origem demoníaca e que o verdadeiro Deus, por ser um pai amoroso e rico, quer ver seus filhos sadios, prósperos e ricos. Quem vive fora da dimensão da riqueza estaria fora dos propósitos divinos e necessitaria descobrí-lo.
Como bem analisou Campos (1999), esta doutrina é obviamente uma teologia muito apropriada para os excluídos que se multiplicam em nosso país, principalmente depois do processo de industrialização, pois a urbanização caótica que adveio nos anos 80 criou um contingente que se sentia desenganado e revoltado com a vida, mas ainda guardando vagas esperanças.
Todavia, engana-se quem pensa que o ponto de atração do neopentecostalismo seja apenas oferecer uma resposta a uma queixa financeira. Através da sedutora mensagem Pare de Sofrer, os líderes neopentecostais afirmam debelar, em nome de Jesus, quaisquer tipos de sofrimento, que vão desde a mais simples dor de cabeça, passando pela resolução dos problemas com drogas, alcoolismo e violência dentro da família, incluindo a cura de todo tipo de enfermidade (física ou mental), exorcismo de opressões espirituais, encostos, até a resolução de questões tão genéricas como conflitos amorosos, mau olhado e inveja.
Percebe-se, com isso, que a lógica que atravessa a composição do quadro doutrinário do neopentecostalismo incide em um inteligente trânsito simbólico de idéias e valores oriundos de matrizes tão distintas, como o são o catolicismo popular (mau olhado, inveja), as religiões afro-brasileiras (descarrego, opressão espiritual) e o próprio protestantismo (prosperidade, pastor, reavivamento da fé). Almeida e Montero (2001) nos informam sobre uma antropofagia religiosa efetivada pelo neopentecostalismo que, ao trabalhar com os binômios negação/inversão e assimilação/continuidade, consegue misturar exus com glossolalia, exorcismo com transe, aproveitando o solo altamente sincrético da religiosidade nacional.
Nas útlimas décadas, nos deparamos com a configuração de uma nova cartografia discursiva, que é marcada pela fragmentação da subjetividade. Essas novas maneiras de construção da subjetividade tendem a colocar o eu diante de uma fatídica encruzilhada, onde um lado aponta para a possibilidade de poder ocupar o lugar de objeto de glorificação, enquanto o outro caminho apresenta o risco de se deparar com o fracasso do ideal de realização de uma estética perfeita da existência. Infelizmente, o segundo caminho é mais largo, e ao percorrê-lo o eu se defronta com um conjunto de padecimentos: síndrome do pânico, bulimias, anorexias, toxicomanias, etc, que, se, a rigor, não aparecem como modos de adoecimento totalmente inéditos, apontam para leituras de um sintoma narcisista que representa a época atual. Essas psicopatologias da atualidade nos levam a pensar que as configurações discursivas contemporâneas repercutem na articulação de novas formas do sujeito se posicionar frente aos objetos. Sobre isso, afirma Carneiro (2004), estamos em tempos de consumo onde qualquer objeto pode ser utilizado maciçamente pelo discurso capitalista como algo consumível e significativo para o sustento da vida. Tempos de novas dietas, afirma este autor, ainda que estas sirvam apenas como recobrimento de antigas normas, em especial aquela que impulsiona o sujeito numa busca sempre renovada de aprender. Imaginariamente, o que lhe falta é superar, enfim o mal-estar que o constitui. O que chama a atenção nesta discussão é o caráter de urgência com que o sofrimento deve ser aplacado e o imperativo de adaptação a uma lógica utilitarista, aspectos que são bem próprios dos discursos de nossa época, do capitalista e do tecnocientífico principalmente.
Dito isso, parece haver uma analogia entre esses aspectos e a forma como os discursos religiosos contemporâneos, o neopentecostalismo principalmente, têm se comportado.
As religiões, assim como os outros discursos que sustentam nossa organização cultural contemporânea, encontram-se também atravessadas pelas imposições que a tecnociência e o capitalismo fazem em nome de uma eficácia dos objetos. Elas devem, de uma forma ou de outra, apresentar ao longo de sua Visão de Mundo Religiosa uma eficiência que não deixe espaço para a deflagração da marca fundamental do sujeito inserido no mundo da linguagem, ou seja, o desamparo.
Em um trabalho constante de construção de produtos que façam esboço de objeto perdido, os objetos oferecidos pelos discursos religiosos, que sempre tentaram suturar o desamparo original do sujeito contemporaneamente deve seguir o imperativo de mostrar a validade de sua proposta em responder de um modo adequado às demandas de solução do sofrimento. No caso de fracasso deste intento, não há mais cerimônias por parte dos fiéis em recorrer a outras Visões de Mundo Religiosas, ou seja, na escolha de novos discursos religiosos que se mostrem em melhor sintonia com as imposições de nossa sociedade atual.
Concluímos afirmando que por estarmos inseridos numa sociedade que segue a risca os ditames dos discursos da tecnociência e do capitalismo, onde a produção-consumo de uma série de objetos se apóia na satisfação pulsional imediata, na glorificação do eu e em uma estetização da existência, dificilmente escapamos da cristalização em uma lógica que investe constantemente em objetos que devem funcionar da melhor maneira possível não apenas para suportar o mal-estar mas extirpá-lo definitivamente. O descumprimento destes aspectos acarretaria no abandono deste artifício e na eleição de um outro objeto que, imaginariamente, se apresente como mais bem acabado.

Referências:
ALMEIDA, R. e MONTERO, P. Transito religioso no Brasil. In: São Paulo em Perspectivas, 15(3)2001, pp. 92-101.
CAMPOS, L. S. A Igreja Universal do Reino de Deus, um empreendimento religioso atual e seus modos de expansão (Brasil, África e Europa), In: Lusotopie, 1999, pp. 355-367
CARNEIRO, H. F. Sujeito, sofrimento psíquico e contemporaneidade: uma posição. In: Revista Mal-estar e Subjetividade, vol. IV, no. 2, setembro 2004, pp. 277-295.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Nossa

Nossa

GIB indica

GIB indica