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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O SISTEMA TEOLÓGICO NEOPENTECOSTAL DE PROPOSTA DE SALVAÇÃO

Prof. Eduardo Gomes

Uma marca muito forte do neopentecostalismo é a prevalência dos sinais sobre a essência. Neste particular, o neopentecostalismo apela para o irracionalismo filosófico1 e seus pregadores desconsideram condições intelectuais melhores, desdenhando, inclusive, dos pregadores mais bem preparados. Explorando a essencialidade, o neopentecostalismo se inclina para uma performance mercadológica com uma proposta peculiar de oferta de bens salvíficos. Sobre esta questão das “ofertas neopentecostais”, apresentamos algumas considerações do professor João Décio Passos2, que entendemos ser importante:

As ofertas são, quase sempre, proporcionais às procuras dos grupos humanos, com suas condições sociais e suas referências culturais específicas, por isso mesmo elas costumam acompanhar as transformações sofridas pelos mesmos grupos ao longo da história (...). A oferta de bens salvíficos do neopentecostalismo é a marca que o caracteriza como tal, estando presente nos discursos e nas práticas das diversas igrejas que o compõe (...) Na lógica da oferta neopentecostal, a solução está dada por Jesus, a igreja oferece o ritual de aquisição por meio de um gesto que permite ao fiel demonstrar sua fé no poder de Jesus. O fiel demonstra sua fé doando a Deus o que pode ou o que pede a prodigalidade de sua fé (...). A posse da bênção tem um conteúdo concreto que responde às necessidades e desejos mais prementes das pessoas, de modo particular das mais pobres, e uma teologia que sustenta o sistema de crenças neopentecostais. Essa teologia afirma que a vida desejada e planejada por Deus para os seus filhos é a vida feliz, ou seja, satisfeita de todos os bens. Doar é tomar posse dos bens que Deus destinou a seus filhos. Tudo o que perturba a ordem original deve ser desfeito pelos rituais da cura e do exorcismo, para que a bênção possa fluir (...). A teologia da prosperidade é, nesse sentido, a formulação mais madura desse processo de controle ritual da salvação, centrada, por um lado, na experiência de fé individual e, por outro, na habilidade dos pastores em provocar milagres. Tal desenvolvimento da concepção e da prática de salvação pentecostal vai ter um encontro decisivo com tendências protestantes da chamada confissão positiva, que afirma o poder da fé como força capaz de realizar transformações e milagres na vida das pessoas (...). A teologia da prosperidade resolve, portanto, o problema da salvação na história, delimitando-a na realização do bem-estar presente. (PASSOS, 2005, p. 61)

O sistema teológico do neopentecostalismo, sustenta uma prática de troca em que Deus doa na medida em que o fiel também doa. As indulgências, contra as quais o fundador do protestantismo levantou-se com todas as forças da inteligência e da vontade, sofrem uma reedição modernizada. Na teologia da indulgência, a oferta de bens era barganhada em troca de bens futuros, os valores monetários eram trocados por valores escatológicos. A aplicação no mercado do futuro continua, porém de um futuro que vai realizar-se na história, com correções e juros. As obras não apenas salvam como estabelecem o princípio seguro e compensador da proporcionalidade.
No neopentecostalismo, as ofertas e dízimos localizam-se dentro dessa lógica, que reproduz, no âmbito teológico e ritual, a regra moderna do mercado. Embora todo o discurso que rege a relação de troca seja teológico, não se trata de uma mera metáfora do mercado, mas de um mercado real, cujos rendimentos, embora ignorados em sua contabilidade pela população e pelos próprios adeptos, atingem significativas somas.
A forma como esta “teologia do mercado” se apresenta nas igrejas neopentecostais revela um elaborado trabalho de marketing. Considere o que o professor João Décio tem a dizer a este respeito:

O que se pode observar, empiricamente, nessas igrejas revela uma organização administrativa subjacente, ainda que sua mecânica e estratégia não sejam reveladas em detalhes aos pesquisadores. Quem visitar um culto, pode dizer que visitou todos ao menos naquilo que compõe a sua lógica de fundo. A arquitetura, as músicas, a sequência dos cultos, o tom da pregação, os uniformes dos obreiros, os papéis e funções, até os textos bíblicos utilizados, mantêm o mesmo padrão, o que aponta para uma organização e um planejamento centralizado. Embora não haja estudos específicos, no geral essas igrejas parecem adotar o sistema de franchising para abertura de novas igrejas. De qualquer forma, trata-se de organização fortemente centralizada, que executa um plano comum, o qual inclui a preparação dos pastores nas estratégias de marketing. Sobre essa questão não há dúvida de que a equação sujeito (necessidade e desejo) + produto (oferta) = linguagem (adequada) que rege o processo de comunicação do neopentecostalismo, ainda que fosse de modo inconsciente, numa espécie de afinidade eletiva com a cultura do consumo hegemônica em nossos dias. (PASSOS, 2005, p. 74)

Desta maneira, o Movimento Neopentecostal, assumindo uma postura mercadológica, propõe uma forma econômica de salvação. O restultado esperado da fidelidade financeira do devoto à instituição que detém o monopólio da manifestação do sagrado, é de salvação, entendida não como a transformação da vida do indivíduo à conformidade da vida de Cristo, sendo essa a menor de todas as relevâncias, e em alguns casos, até desnecessária, mas a prosperidade financeira e a perfeita saúde, situações positivas que se revelam contra um sistema econômico e de saúde nacional falido. Praticante de uma economoteologia, o Movimento Neopentecostal traz no seu bojo uma proposta de salvação que contraria a integralidade do Evangelho bíblico, vendo no bem estar social do indivíduo a única forma de compromisso de Deus com a humanidade, invertendo a lógica da graça, partindo das obras para o direito à salvação e não do sacrifício de Jesus para o recolhimento de vidas como manifestação do amor daquele nos amou primeiro e entregou a vida de Seu filho em resgate de muitos.


1 Corrente filosófica que surgiu em contraposição à chamada idade da razão. O irracionalismo sustenta que a capacidade humana para apreender a realidade é maior quando supera os limites do racional. A negação da racionalidade exclui, em geral, o campo das ciências naturais e matemáticas, bem como o da indústria e da técnica, para concentrar-se no das realidades propriamente humanas, sociais e históricas. Com raízes na metafísica, o irracionalismo enfatiza o papel do instinto, do sentimento e da vontade, em oposição à razão. Para a ontologia, implica que o mundo não tem estrutura racional, sentido ou propósito. Para a epistemologia, que a razão é incapaz de apreender o universo sem distorções. Para a antropologia, que o componente irracional é dominante na natureza humana.

2 Joao Décio Passos é professor associado do Departamento de Teologia e Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em Ciências Sociais, exerce o cargo de vice-reitor na mesma Universidade

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O NEOPENTECOSTALISMO E OS NOVOS DISCURSOS RELIGIOSOS CONTEMPORÂNEOS

Prof. Eduardo Gomes

O fenômeno religioso, conhecido como Neopentecostalismo, e também chamado por alguns pesquisadores da religião de Pentecostalismo Autônomo ou Pentecostalismo Místico, é uma vertente do Movimento Evangélico que apareceu no Brasil nos anos 70, fortalecendo-se nos idos de 1980. Sua marca específica é a liberação dos estereotipados usos e costumes, os quais durante muito tempo caracterizavam os crentes Pentecostais do Brasil, tais como: cabelos longos, saia abaixo do joelho, proibição de assistir televisão, etc. Houve, igualmente, por parte desta corrente, uma exacerbação da guerra espiritual contra o Diabo e o seu séquito de anjos caídos e a pregação enfática da Teologia da Prosperidade, associada à aquisição de bens materiais.
A Teologia da Prosperidade, doutrina bastante difundida nos EUA em 1930, assume para os neopentecostais os tons de uma vida com abundância. Esta ideologia teológica, prega que a pobreza é de origem demoníaca e que o verdadeiro Deus, por ser um pai amoroso e rico, quer ver seus filhos sadios, prósperos e ricos. Quem vive fora da dimensão da riqueza estaria fora dos propósitos divinos e necessitaria descobrí-lo.
Como bem analisou Campos (1999), esta doutrina é obviamente uma teologia muito apropriada para os excluídos que se multiplicam em nosso país, principalmente depois do processo de industrialização, pois a urbanização caótica que adveio nos anos 80 criou um contingente que se sentia desenganado e revoltado com a vida, mas ainda guardando vagas esperanças.
Todavia, engana-se quem pensa que o ponto de atração do neopentecostalismo seja apenas oferecer uma resposta a uma queixa financeira. Através da sedutora mensagem Pare de Sofrer, os líderes neopentecostais afirmam debelar, em nome de Jesus, quaisquer tipos de sofrimento, que vão desde a mais simples dor de cabeça, passando pela resolução dos problemas com drogas, alcoolismo e violência dentro da família, incluindo a cura de todo tipo de enfermidade (física ou mental), exorcismo de opressões espirituais, encostos, até a resolução de questões tão genéricas como conflitos amorosos, mau olhado e inveja.
Percebe-se, com isso, que a lógica que atravessa a composição do quadro doutrinário do neopentecostalismo incide em um inteligente trânsito simbólico de idéias e valores oriundos de matrizes tão distintas, como o são o catolicismo popular (mau olhado, inveja), as religiões afro-brasileiras (descarrego, opressão espiritual) e o próprio protestantismo (prosperidade, pastor, reavivamento da fé). Almeida e Montero (2001) nos informam sobre uma antropofagia religiosa efetivada pelo neopentecostalismo que, ao trabalhar com os binômios negação/inversão e assimilação/continuidade, consegue misturar exus com glossolalia, exorcismo com transe, aproveitando o solo altamente sincrético da religiosidade nacional.
Nas útlimas décadas, nos deparamos com a configuração de uma nova cartografia discursiva, que é marcada pela fragmentação da subjetividade. Essas novas maneiras de construção da subjetividade tendem a colocar o eu diante de uma fatídica encruzilhada, onde um lado aponta para a possibilidade de poder ocupar o lugar de objeto de glorificação, enquanto o outro caminho apresenta o risco de se deparar com o fracasso do ideal de realização de uma estética perfeita da existência. Infelizmente, o segundo caminho é mais largo, e ao percorrê-lo o eu se defronta com um conjunto de padecimentos: síndrome do pânico, bulimias, anorexias, toxicomanias, etc, que, se, a rigor, não aparecem como modos de adoecimento totalmente inéditos, apontam para leituras de um sintoma narcisista que representa a época atual. Essas psicopatologias da atualidade nos levam a pensar que as configurações discursivas contemporâneas repercutem na articulação de novas formas do sujeito se posicionar frente aos objetos. Sobre isso, afirma Carneiro (2004), estamos em tempos de consumo onde qualquer objeto pode ser utilizado maciçamente pelo discurso capitalista como algo consumível e significativo para o sustento da vida. Tempos de novas dietas, afirma este autor, ainda que estas sirvam apenas como recobrimento de antigas normas, em especial aquela que impulsiona o sujeito numa busca sempre renovada de aprender. Imaginariamente, o que lhe falta é superar, enfim o mal-estar que o constitui. O que chama a atenção nesta discussão é o caráter de urgência com que o sofrimento deve ser aplacado e o imperativo de adaptação a uma lógica utilitarista, aspectos que são bem próprios dos discursos de nossa época, do capitalista e do tecnocientífico principalmente.
Dito isso, parece haver uma analogia entre esses aspectos e a forma como os discursos religiosos contemporâneos, o neopentecostalismo principalmente, têm se comportado.
As religiões, assim como os outros discursos que sustentam nossa organização cultural contemporânea, encontram-se também atravessadas pelas imposições que a tecnociência e o capitalismo fazem em nome de uma eficácia dos objetos. Elas devem, de uma forma ou de outra, apresentar ao longo de sua Visão de Mundo Religiosa uma eficiência que não deixe espaço para a deflagração da marca fundamental do sujeito inserido no mundo da linguagem, ou seja, o desamparo.
Em um trabalho constante de construção de produtos que façam esboço de objeto perdido, os objetos oferecidos pelos discursos religiosos, que sempre tentaram suturar o desamparo original do sujeito contemporaneamente deve seguir o imperativo de mostrar a validade de sua proposta em responder de um modo adequado às demandas de solução do sofrimento. No caso de fracasso deste intento, não há mais cerimônias por parte dos fiéis em recorrer a outras Visões de Mundo Religiosas, ou seja, na escolha de novos discursos religiosos que se mostrem em melhor sintonia com as imposições de nossa sociedade atual.
Concluímos afirmando que por estarmos inseridos numa sociedade que segue a risca os ditames dos discursos da tecnociência e do capitalismo, onde a produção-consumo de uma série de objetos se apóia na satisfação pulsional imediata, na glorificação do eu e em uma estetização da existência, dificilmente escapamos da cristalização em uma lógica que investe constantemente em objetos que devem funcionar da melhor maneira possível não apenas para suportar o mal-estar mas extirpá-lo definitivamente. O descumprimento destes aspectos acarretaria no abandono deste artifício e na eleição de um outro objeto que, imaginariamente, se apresente como mais bem acabado.

Referências:
ALMEIDA, R. e MONTERO, P. Transito religioso no Brasil. In: São Paulo em Perspectivas, 15(3)2001, pp. 92-101.
CAMPOS, L. S. A Igreja Universal do Reino de Deus, um empreendimento religioso atual e seus modos de expansão (Brasil, África e Europa), In: Lusotopie, 1999, pp. 355-367
CARNEIRO, H. F. Sujeito, sofrimento psíquico e contemporaneidade: uma posição. In: Revista Mal-estar e Subjetividade, vol. IV, no. 2, setembro 2004, pp. 277-295.

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