Prof. Eduardo Gomes
Uma marca muito forte do neopentecostalismo é a prevalência dos sinais sobre a essência. Neste particular, o neopentecostalismo apela para o irracionalismo filosófico1 e seus pregadores desconsideram condições intelectuais melhores, desdenhando, inclusive, dos pregadores mais bem preparados. Explorando a essencialidade, o neopentecostalismo se inclina para uma performance mercadológica com uma proposta peculiar de oferta de bens salvíficos. Sobre esta questão das “ofertas neopentecostais”, apresentamos algumas considerações do professor João Décio Passos2, que entendemos ser importante:
As ofertas são, quase sempre, proporcionais às procuras dos grupos humanos, com suas condições sociais e suas referências culturais específicas, por isso mesmo elas costumam acompanhar as transformações sofridas pelos mesmos grupos ao longo da história (...). A oferta de bens salvíficos do neopentecostalismo é a marca que o caracteriza como tal, estando presente nos discursos e nas práticas das diversas igrejas que o compõe (...) Na lógica da oferta neopentecostal, a solução está dada por Jesus, a igreja oferece o ritual de aquisição por meio de um gesto que permite ao fiel demonstrar sua fé no poder de Jesus. O fiel demonstra sua fé doando a Deus o que pode ou o que pede a prodigalidade de sua fé (...). A posse da bênção tem um conteúdo concreto que responde às necessidades e desejos mais prementes das pessoas, de modo particular das mais pobres, e uma teologia que sustenta o sistema de crenças neopentecostais. Essa teologia afirma que a vida desejada e planejada por Deus para os seus filhos é a vida feliz, ou seja, satisfeita de todos os bens. Doar é tomar posse dos bens que Deus destinou a seus filhos. Tudo o que perturba a ordem original deve ser desfeito pelos rituais da cura e do exorcismo, para que a bênção possa fluir (...). A teologia da prosperidade é, nesse sentido, a formulação mais madura desse processo de controle ritual da salvação, centrada, por um lado, na experiência de fé individual e, por outro, na habilidade dos pastores em provocar milagres. Tal desenvolvimento da concepção e da prática de salvação pentecostal vai ter um encontro decisivo com tendências protestantes da chamada confissão positiva, que afirma o poder da fé como força capaz de realizar transformações e milagres na vida das pessoas (...). A teologia da prosperidade resolve, portanto, o problema da salvação na história, delimitando-a na realização do bem-estar presente. (PASSOS, 2005, p. 61)
O sistema teológico do neopentecostalismo, sustenta uma prática de troca em que Deus doa na medida em que o fiel também doa. As indulgências, contra as quais o fundador do protestantismo levantou-se com todas as forças da inteligência e da vontade, sofrem uma reedição modernizada. Na teologia da indulgência, a oferta de bens era barganhada em troca de bens futuros, os valores monetários eram trocados por valores escatológicos. A aplicação no mercado do futuro continua, porém de um futuro que vai realizar-se na história, com correções e juros. As obras não apenas salvam como estabelecem o princípio seguro e compensador da proporcionalidade.
No neopentecostalismo, as ofertas e dízimos localizam-se dentro dessa lógica, que reproduz, no âmbito teológico e ritual, a regra moderna do mercado. Embora todo o discurso que rege a relação de troca seja teológico, não se trata de uma mera metáfora do mercado, mas de um mercado real, cujos rendimentos, embora ignorados em sua contabilidade pela população e pelos próprios adeptos, atingem significativas somas.
A forma como esta “teologia do mercado” se apresenta nas igrejas neopentecostais revela um elaborado trabalho de marketing. Considere o que o professor João Décio tem a dizer a este respeito:
O que se pode observar, empiricamente, nessas igrejas revela uma organização administrativa subjacente, ainda que sua mecânica e estratégia não sejam reveladas em detalhes aos pesquisadores. Quem visitar um culto, pode dizer que visitou todos ao menos naquilo que compõe a sua lógica de fundo. A arquitetura, as músicas, a sequência dos cultos, o tom da pregação, os uniformes dos obreiros, os papéis e funções, até os textos bíblicos utilizados, mantêm o mesmo padrão, o que aponta para uma organização e um planejamento centralizado. Embora não haja estudos específicos, no geral essas igrejas parecem adotar o sistema de franchising para abertura de novas igrejas. De qualquer forma, trata-se de organização fortemente centralizada, que executa um plano comum, o qual inclui a preparação dos pastores nas estratégias de marketing. Sobre essa questão não há dúvida de que a equação sujeito (necessidade e desejo) + produto (oferta) = linguagem (adequada) que rege o processo de comunicação do neopentecostalismo, ainda que fosse de modo inconsciente, numa espécie de afinidade eletiva com a cultura do consumo hegemônica em nossos dias. (PASSOS, 2005, p. 74)
Desta maneira, o Movimento Neopentecostal, assumindo uma postura mercadológica, propõe uma forma econômica de salvação. O restultado esperado da fidelidade financeira do devoto à instituição que detém o monopólio da manifestação do sagrado, é de salvação, entendida não como a transformação da vida do indivíduo à conformidade da vida de Cristo, sendo essa a menor de todas as relevâncias, e em alguns casos, até desnecessária, mas a prosperidade financeira e a perfeita saúde, situações positivas que se revelam contra um sistema econômico e de saúde nacional falido. Praticante de uma economoteologia, o Movimento Neopentecostal traz no seu bojo uma proposta de salvação que contraria a integralidade do Evangelho bíblico, vendo no bem estar social do indivíduo a única forma de compromisso de Deus com a humanidade, invertendo a lógica da graça, partindo das obras para o direito à salvação e não do sacrifício de Jesus para o recolhimento de vidas como manifestação do amor daquele nos amou primeiro e entregou a vida de Seu filho em resgate de muitos.
1 Corrente filosófica que surgiu em contraposição à chamada idade da razão. O irracionalismo sustenta que a capacidade humana para apreender a realidade é maior quando supera os limites do racional. A negação da racionalidade exclui, em geral, o campo das ciências naturais e matemáticas, bem como o da indústria e da técnica, para concentrar-se no das realidades propriamente humanas, sociais e históricas. Com raízes na metafísica, o irracionalismo enfatiza o papel do instinto, do sentimento e da vontade, em oposição à razão. Para a ontologia, implica que o mundo não tem estrutura racional, sentido ou propósito. Para a epistemologia, que a razão é incapaz de apreender o universo sem distorções. Para a antropologia, que o componente irracional é dominante na natureza humana.
2 Joao Décio Passos é professor associado do Departamento de Teologia e Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em Ciências Sociais, exerce o cargo de vice-reitor na mesma Universidade
Uma marca muito forte do neopentecostalismo é a prevalência dos sinais sobre a essência. Neste particular, o neopentecostalismo apela para o irracionalismo filosófico1 e seus pregadores desconsideram condições intelectuais melhores, desdenhando, inclusive, dos pregadores mais bem preparados. Explorando a essencialidade, o neopentecostalismo se inclina para uma performance mercadológica com uma proposta peculiar de oferta de bens salvíficos. Sobre esta questão das “ofertas neopentecostais”, apresentamos algumas considerações do professor João Décio Passos2, que entendemos ser importante:
As ofertas são, quase sempre, proporcionais às procuras dos grupos humanos, com suas condições sociais e suas referências culturais específicas, por isso mesmo elas costumam acompanhar as transformações sofridas pelos mesmos grupos ao longo da história (...). A oferta de bens salvíficos do neopentecostalismo é a marca que o caracteriza como tal, estando presente nos discursos e nas práticas das diversas igrejas que o compõe (...) Na lógica da oferta neopentecostal, a solução está dada por Jesus, a igreja oferece o ritual de aquisição por meio de um gesto que permite ao fiel demonstrar sua fé no poder de Jesus. O fiel demonstra sua fé doando a Deus o que pode ou o que pede a prodigalidade de sua fé (...). A posse da bênção tem um conteúdo concreto que responde às necessidades e desejos mais prementes das pessoas, de modo particular das mais pobres, e uma teologia que sustenta o sistema de crenças neopentecostais. Essa teologia afirma que a vida desejada e planejada por Deus para os seus filhos é a vida feliz, ou seja, satisfeita de todos os bens. Doar é tomar posse dos bens que Deus destinou a seus filhos. Tudo o que perturba a ordem original deve ser desfeito pelos rituais da cura e do exorcismo, para que a bênção possa fluir (...). A teologia da prosperidade é, nesse sentido, a formulação mais madura desse processo de controle ritual da salvação, centrada, por um lado, na experiência de fé individual e, por outro, na habilidade dos pastores em provocar milagres. Tal desenvolvimento da concepção e da prática de salvação pentecostal vai ter um encontro decisivo com tendências protestantes da chamada confissão positiva, que afirma o poder da fé como força capaz de realizar transformações e milagres na vida das pessoas (...). A teologia da prosperidade resolve, portanto, o problema da salvação na história, delimitando-a na realização do bem-estar presente. (PASSOS, 2005, p. 61)
O sistema teológico do neopentecostalismo, sustenta uma prática de troca em que Deus doa na medida em que o fiel também doa. As indulgências, contra as quais o fundador do protestantismo levantou-se com todas as forças da inteligência e da vontade, sofrem uma reedição modernizada. Na teologia da indulgência, a oferta de bens era barganhada em troca de bens futuros, os valores monetários eram trocados por valores escatológicos. A aplicação no mercado do futuro continua, porém de um futuro que vai realizar-se na história, com correções e juros. As obras não apenas salvam como estabelecem o princípio seguro e compensador da proporcionalidade.
No neopentecostalismo, as ofertas e dízimos localizam-se dentro dessa lógica, que reproduz, no âmbito teológico e ritual, a regra moderna do mercado. Embora todo o discurso que rege a relação de troca seja teológico, não se trata de uma mera metáfora do mercado, mas de um mercado real, cujos rendimentos, embora ignorados em sua contabilidade pela população e pelos próprios adeptos, atingem significativas somas.
A forma como esta “teologia do mercado” se apresenta nas igrejas neopentecostais revela um elaborado trabalho de marketing. Considere o que o professor João Décio tem a dizer a este respeito:
O que se pode observar, empiricamente, nessas igrejas revela uma organização administrativa subjacente, ainda que sua mecânica e estratégia não sejam reveladas em detalhes aos pesquisadores. Quem visitar um culto, pode dizer que visitou todos ao menos naquilo que compõe a sua lógica de fundo. A arquitetura, as músicas, a sequência dos cultos, o tom da pregação, os uniformes dos obreiros, os papéis e funções, até os textos bíblicos utilizados, mantêm o mesmo padrão, o que aponta para uma organização e um planejamento centralizado. Embora não haja estudos específicos, no geral essas igrejas parecem adotar o sistema de franchising para abertura de novas igrejas. De qualquer forma, trata-se de organização fortemente centralizada, que executa um plano comum, o qual inclui a preparação dos pastores nas estratégias de marketing. Sobre essa questão não há dúvida de que a equação sujeito (necessidade e desejo) + produto (oferta) = linguagem (adequada) que rege o processo de comunicação do neopentecostalismo, ainda que fosse de modo inconsciente, numa espécie de afinidade eletiva com a cultura do consumo hegemônica em nossos dias. (PASSOS, 2005, p. 74)
Desta maneira, o Movimento Neopentecostal, assumindo uma postura mercadológica, propõe uma forma econômica de salvação. O restultado esperado da fidelidade financeira do devoto à instituição que detém o monopólio da manifestação do sagrado, é de salvação, entendida não como a transformação da vida do indivíduo à conformidade da vida de Cristo, sendo essa a menor de todas as relevâncias, e em alguns casos, até desnecessária, mas a prosperidade financeira e a perfeita saúde, situações positivas que se revelam contra um sistema econômico e de saúde nacional falido. Praticante de uma economoteologia, o Movimento Neopentecostal traz no seu bojo uma proposta de salvação que contraria a integralidade do Evangelho bíblico, vendo no bem estar social do indivíduo a única forma de compromisso de Deus com a humanidade, invertendo a lógica da graça, partindo das obras para o direito à salvação e não do sacrifício de Jesus para o recolhimento de vidas como manifestação do amor daquele nos amou primeiro e entregou a vida de Seu filho em resgate de muitos.
1 Corrente filosófica que surgiu em contraposição à chamada idade da razão. O irracionalismo sustenta que a capacidade humana para apreender a realidade é maior quando supera os limites do racional. A negação da racionalidade exclui, em geral, o campo das ciências naturais e matemáticas, bem como o da indústria e da técnica, para concentrar-se no das realidades propriamente humanas, sociais e históricas. Com raízes na metafísica, o irracionalismo enfatiza o papel do instinto, do sentimento e da vontade, em oposição à razão. Para a ontologia, implica que o mundo não tem estrutura racional, sentido ou propósito. Para a epistemologia, que a razão é incapaz de apreender o universo sem distorções. Para a antropologia, que o componente irracional é dominante na natureza humana.
2 Joao Décio Passos é professor associado do Departamento de Teologia e Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutor em Ciências Sociais, exerce o cargo de vice-reitor na mesma Universidade